sábado, 31 de outubro de 2015

Ao meu querido avô Manuel


Dirijo esta carta aberta a uma das pessoas mais doces e queridas que conheci, o meu avô paterno Manuel. Publico uma foto dele comigo, muito embora queira que este blogue seja anónimo e muita gente não saiba que tenho blogue, mas a toda a gente que ler este post, quero que saibam como era o meu avô, não quero que a sua face seja esquecida, quero que vejam o quão doce e bondoso ele era, quero que saibam do imenso orgulho que tenho  nele.
Avô, deixaste este Mundo há cerca de dois dias, nunca regressarás mas ficarás para sempre na minha memória e presente na minha vida e pensamento até eu também deixar este Mundo para sempre.
Como neta pesa-me na consciência não te ter visto mais vezes que podia e devia, especialmente na tua última semana de vida no hospital, perdoa-me. Achamos sempre que vamos ter mais tempo e mais tempo mas depois o tempo pára. Tu estavas a sofrer muito eu sei que sentir nada é melhor que ter dores, foste um guerreiro, viveste quase um século, chegaste a fazer 89 anos, tinhas uma doença que te incapacitava de te lembrares de mim e até de ti, da tua vida, tinhas alzheimer, estavas cá mas não totalmente, a tua memória já estava perdida nas memórias de criança e misturavas quem eras com quem foste. Depois com a pneumonia as tuas defesas estavam em baixo, ambos sabemos que tinhas de ir, mas mesmo assim custa saber que já não vives mais.
 Lutaste até ao ultimo minuto, tiveste sempre muitas visitas diárias tanto no hospital como em casa, mas sim continuo a sentir que te devia ter visitado mais, muito mais, abraçar-te mais, ter falado mais contigo mesmo quando já não estavas bem cá, ter-te conhecido melhor e a esse passado duro e pesado que tiveste em criança: 
Sei que vieste criança para Lisboa para ajudar o teu pai a sustentar os teus irmãos mais novos, chegaste a dormir nos esgotos da capital e a comer restos, depois tiveste a grande sorte de conhecer uma rapariga tão linda chamada Noémia e que se tornou no grande amor e companheira de toda uma vida durante mais de 60 anos, quantas pessoas serão felizardas de ter conhecido e ter tido um amor assim tão verdadeiro? um amor assim tão correspondido? (eu ainda não sei o que isso é e tu soubeste cedo que a Noémia era a tua eleita e a Noémia sabia que tu eras o eleito). 
Ainda me lembro de há oito anos terem sido as bodas de ouro e termos festejado no restaurante "Leão de Ouro", aí ainda estavas são e andavas e falavas e sorrias, tu e a avó estavam muitos felizes, quantas pessoas chegam às bodas de ouro nestes dias?
A avó cumpriu com o seu juramento, entregou-se a ti e foi-te fiel nas alegrias e nas tristezas , na saúde e na doença, todos os dias das vossas vidas até que a morte vos separou.Não morreste sozinho, estiveste sempre rodeado das pessoas que gostavam de ti muito embora já não soubesses quem nós éramos.
Tu e avó só tinham o 4º ano mas com muitas dificuldades criaram dois rapazes fantásticos que tiraram curso superior e foram alguém bem sucedido na vida profissional, nunca foste rico em materiais mas uma pessoa super doce rica nas maiores qualidades que algum dinheiro no mundo poderá comprar, e como se não bastasse foste um avó super carinhoso e bondoso para as tuas netas. 
Gostava de ter anotado as tuas memórias, e dizer-te algo que nunca disse mas acho que tanto tú como eu demonstrámos: eu amo-te avô e tive honestamente a sorte de ter tido como avô, de te ter podido conhecer e de ter tido por tantos anos.
Acabaste por morrer no mesmo hospital onde eu e a minha irmã nascemos e onde o pai superou um cancro e mãe se recuperou tendo ficado entre a vida e a morte. Tiveste um fim de vida digno, a morfina anestesiou-te as dores e foste sempre bem cuidado pelos enfermeiros e médicos que mesmo sabendo o quão velhinho eras nunca desistiram para que vivesses mais anos...aguentaste 26 dias no hospital...eu ingenuamente achei que ainda pudesses voltar para casa mesmo ficando acamado. Talvez partir seja mais fácil para quem vai do que para os que ficam.
Hoje foi o teu funeral e fiquei muito surpreendida e feliz por ter visto tanta gente lá, tocaste os corações de muita gente, uniste muito a família pela qual tudo fizeste, vieram amigos e conhecidos, familares, cônjugues de familiares, pessoas que nem conhecias, isso quer dizer que foste deveras importante e foste avô, muita gente chorou mesmo sabendo que com estas idades é normal isto acontecer.
Viveste uma vida longa com o amor da tua vida por mais de 60 anos, a avó Noémia, educaste e viajaste com os teus filhos, foste um avô exemplar e morreste durante o sono sem sentires dor e sem consciência que morreste, morreste amado por todos e serás recordado por todos, para sempre.
Quero agradecer-te por me teres levado e buscado à escola, por me teres levado à piscina e ao parque,  por me teres ensinado a andar de bicicleta, por me teres levado para a casa de campo, pelas histórias que me contaste (como aquela de uma pessoa da tua terra ter vindo para Lisboa e ter ido à mercearia para comprar electricidade em pó e as luzes das estrelas no rio Zêzere que as pessoas do Urgeiro diziam ser bruxas),por seres tão bondoso, amigo e tudo de bom.
Os teus filhos gostavam mesmo de ti, o meu pai nunca te deixou sozinho e despediu-se de ti todos os dias, tratava-lhes por pai já no fim, como é irónico os papeis mudarem não é? no início eras tu a cuidar daqueles seres indefesos que eram os teus filhos e no fim são eles que cuidam de ti. Sabes a minha relação com o teu filho, o meu pai, nunca foi muito fácil desde que cresci, e embora às vezes não pareça eu admiro-o pelo que ele fez por ti e por mim, foi um filho exemplar que cumpriu sempre com as suas funções e como pai sempre foi atencioso e apesar de tudo bondoso, é um homem de família de verdade, como há poucos e foste tu que o ensinaste isso. 
Enquanto estava no funeral a ver o quão triste é desaparecer, pensava tristemente que este será o fim de toda a gente que lá estava também e comecei aos prantos a pensar que um dia talvez sejam os meus pais, ou quando for a avó....pensar que todos somos meros seres biodegradáveis que um dia vamos parar de existir, pensar que apesar de isto ser nada, é um nada que quando acaba me faz sentir uma dor infinita. Talvez este seja o preço de amar e ter tantas boas memórias, sofrer com a perda e morrer de saudades de um passado que nunca mais virá. Dói pensar que o nosso futuro é ir perdendo as pessoas que amamos, dói mesmo e não não posso dizer que isso prova que nada existe, este nada é bem duro de sentir. Dói pensar que um dia todos seremos apenas memórias e dói este sentimento de perda embora já achasse que estava preparada para te perder de vez.
Mas talvez até estejas num sítio melhor quem sabe, talvez haja reencarnação quem sabe? talvez tudo isto seja um sonho e nada exista verdadeiramente, talvez um dia o Universo faça sentido, talvez estejas em paz no Céu junto daqueles que antes choraste por terem partido,  talvez um dia nos reencontremos.
De 9-10-1926 a 30-10-2015 tiveste uma vida longa, alegre, amando sempre toda a gente e sendo amado por todos, foi justo considero. Gostava de me ter despedido de ti uma última vez e isso vai atormentar-me para o resto da vida, mas quero que saibas que foste uma das pessoas mais queridas e que mais gostei de conhecer na vida. Nunca te disse pessoalmente mas eu amo-te avô, obrigada por tudo, obrigada por teres existido e teres estado presente na minha vida e quero que saibas que nunca mas NUNCA irás morrer no meu coração.

Até sempre avô, obrigada por tudo

Com eterna saudade, da tua neta